Bolas de Berlim

891,75 km2. 3,939,933 habitantes. Um blogue sobre quem fica e quem parte, sobre as saudades que se sentem e as decisões que se tomam, sobre Berlim e Lisboa, Lisboa em Berlim, Berlim em Lisboa. Das bolas de Berlim em si pouco se fala. As de cá não prestam e o Muro caiu a 9 de Novembro de 1989.

Terça-feira, Novembro 21, 2006

Obituário

Hoje fui ver um filme sobre. Mais do que o tema em si, incomodou-me o seu final. Foi um final estúpido, apesar de ser o único possível. Quem vai comigo ao cinema sabe que não gosto de fins sem remédio.
Mas não entendes que não podia haver outro fim?
Não entendo. Porque o fim, que em si é inevitável, dispensa eufemismos ou voltas à rotunda do Rossio para atrasar a chegada ao Marquês. O fim é o fim e não há nada que custe mais. Por isso não acredito em fins bonitos ou menos abruptos. Porque os poucos fins a que assisti na minha vida nunca deixaram um travo a hortelã-pimenta. Este fim do qual vos falo, no entanto, não deixará grandes marcas nas vossas vidas, não se preocupem. Lembrar-se-ão, durante algumas semanas, das sagas da Polliejean em Berlim enquanto vos continuar a assombrar a caixa de comentários (e no dreiviertel acht), mas depois deixarão de sentir a minha falta.

(no entanto, isto está a custar um bocadinho, custa-me sempre acabar a caixa de bombons Milka, quanto mais uma relação de dois anos e seis meses - e meio!)

Este blogue acompanhou-me durante este tempo todo, vocês acompanharam-me durante parte dele, através do Bolas conheci muita gente, na sua esmagadora maioria pessoas excelentes (espero ainda conhecer outras que tanto) e fiz algumas boas amizades, visitei e recebi visitas, uma vez abordaram-me no Bairro Alto com o meu alter-ego na boca, fui convidada para participar noutros blogues e há pouco tempo convidaram-me para escrever a sério num suplemento de um jornal num quiosque perto de si. Mas tudo tem o seu fim. Não vou deixar razões nem desculpas. Vou-me embora e não vou olhar para trás. Mas ao acabar esta relação sinto-me impelida a agradecer. A todos vós, por me terem acompanhado (e a falta que vocês me vão fazer...). Obrigada.
Agora sacudam as pipocas da camisola e desliguem o computador que têm mais que fazer.

O Bolas de Berlim acaba aqui.

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Domingo, Novembro 19, 2006

Berlim-Lisboa II

Pelo direito de recordar Lisboa em Berlim

Porque as saudades apertam sempre com a aproximação do Inverno, porque ouvi uma ou outra música ao calhas no iPod (que gosta de me pregar partidas e me descontrolar as saudades), e porque este blogue está mesmo, mesmo quase, quase a chegar ao fim, decidi fazer mais uma compilação para mim e deixar-vos aqui as minhas músicas preferidas debaixo do tema “Lisboa”. Aquelas músicas especiais que nos fazem lembrar uma altura da nossa vida, uma pessoa, uma situação. Neste caso, trata-se apenas da simpliCidade de me fazerem lembrar Lisboa. Não pessoas, não só alturas da vida, mas Lisboa, em Lisboa, através de Lisboa, à volta de Lisboa. Lisboa como principal motor da minha breve biografia pré-emigração. Uma constante: Lisboa à noite, as luzes da capital que se aproximam para quem vem da A1, que se afastam para quem entra na A1, que iluminam as ruas para quem conduz à volta do Bairro Alto, no Príncipe Real, na Avenida de Ceuta, nas pontes, em Alcântara, em Campo de Ourique, na Avenida de Berna, na 24 de Julho. Poderia ser a banda sonora de um roadmovie, com paragens para descansar na Casa da Vodka, dançar no Incógnito ou saltar no Coliseu. De resto, sou sempre eu (uma ou outra vez acompanhada, mas não necessariamente relevante para o caso) no “meu” Corsa comercial com a minha música. Que poderia ser outra, mas é esta. Sem qualquer explicação, nem ordem cronológica ou de preferência:

1. Röysopp – So easy
2. Coldplay – Shiver
3. Gotan Project - El Capitalismo Foraneo
4. Felix Da House Cat – How does it feel like
5. Tricky – Overcome
6. Lamb – Fly
7. Pixies feat. Placebo – Where is my Mind?
8. Stefane de Lucia – 1 Inch deep
9. Sugar Cubes – Regina
10. Clã – O Sorriso de Gioconda
11. E-Z Rollers – Movin´ On
12. Massive Attack – Three
13. Thievery Corporation – Until the Morning
14. Hooverphonic – Jackie Cane
15. A Guy Called Gerald – Beaches & Deserts

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Quinta-feira, Novembro 16, 2006

Berlim-Lisboa I

Top 5 da noite de Berlim

5. White Trash, Mitte
4. Wohnzimmer, Prenzlauer Berg
3. Jam sessions no b-flat, Mitte
2. Karrera Klub no Roter Salon, Mitte
1. Duncker Club, Prenzlauer Berg

Top 5 da noite de Lisboa

5. Cinema King
4. A Outra Face da Lua
3. Catacumbas
2. Animatógarfo (e as tostas nas escadinhas)
1. Incógnito

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Quarta-feira, Novembro 15, 2006

13:38

Acordei e não conseguia mexer um dos lados do corpo. Deitada no chão, porque às 3 da manhã os músculos já se tinham queixado, não conseguia chegar ao despertador (que gritava uma sinfonia pop mais aguda do que a minha própria dor de costas). Fiquei ali muito tempo, de música má nos ouvidos e olhos postos no tecto, a mandar mensagens desesperadas ao cérebro: mexe-te, pela tua saúde!

Lá fui abrir a escola com o pescoço de lado e a coluna enrolada ao umbigo, mas já estou de volta a casa com um atestado até sexta-feira e um saco de água quente a aquecer-me o ombro. Agora que posso exercer o meu direito de (poder) ficar doente, ninguém me convence do contrário.

E o que é que eu ainda no outro dia dizia sobre só ter 26 anos??


P.S.- A minha visita que não se preocupe, sexta-feira já estou boa. Não tenciono deixar ninguém ir sozinho ao Duncker Club. Isto passa, tem de passar... ... mãe!!

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Terça-feira, Novembro 14, 2006

sem palavras (dia terceiro)



Géysir Strokkur, Islândia, 21.10.06

(acabam-se os postes sobre a viagem, acabam-se os jantares para mostrar as fotos, o sonho, esse, é que não há meio de acabar. ainda bem.)

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Domingo, Novembro 12, 2006

Nem com um cordel à volta do mindinho

Se ainda restava alguma dúvida, ontem à noite dei quatro provas a mim mesma de que a minha capacidade para me esquecer das coisas não tem remédio.
Durante o jantar que dei para mostrar as fotos da Islândia, 1) esqueci-me de mostrar as fotos da Islândia, 2) devolvi um livro que me esquecia de devolver há ano e meio e não me consegui lembrar das primeiras 10 páginas para poder dizer porque é que não tinha lido além da décima primeira, 3) havia castanhas assadas e vinho do Porto para a sobremesa, mas só hoje é que me lembrei que até era S. Martinho, e 4) não lhes dei os parabéns à meia-noite como repetia para mim própria de cada vez que ia à cozinha buscar qualquer coisa.

Das três, quatro: 1) ou os meus amigos são mais esquecidos do que eu; 2) ou nunca nos lembramos dos livros maus e isso não é grave; 3) ou a fidelidade à tradição é intrínseca ao português emigrante; ou 4) se eu já estou assim a meio do vigésimo sexto ano, o que fará quando fizer 27.

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Sexta-feira, Novembro 10, 2006

De fotos, segundas-feiras e embaixadas

Não há maneira. De tentar fazer as coisas bem e ser uma cidadã-modelo. Se a simples missão de tentar não deixar caducar o BI (consoante a data do acto de renovação e não a data da recepção da renovação, que isso já seria pedir demais) acaba por se transformar numa teoria da conspiração posta em prática.
Fui à embaixada dois dias antes. Se o BI caducava numa quarta, dava tempo ir lá numa segunda, no tempo dos entretantos sempre teria o passaporte. Mas, como dizia a minha professora de alemão, nunca se deve ir tratar seja do que for numa segunda-feira de manhã. Seja pelo que for, nunca se é bem sucedido.

Depois de chegar à embaixada, bater com o nariz na porta (mas desde quando é que as embaixadas abrem às 8?), ter de ir beber um segundo café forçado e avançar aí umas 20 páginas do livro que estava a ler - tendo em conta que eram 8 da manhã e não 4 da tarde, quando leria o dobro das páginas no mesmo espaço de tempo - voltar à embaixada às 9 e ainda lá não estar ninguém (mas desde quando é que o atendimento ao público português abre as portas a horas?), entretanto chegar a senhora e ainda ter de esperar uns bons 10 minutos enquanto ouvia o tilintar das chávenas de café na sala ao lado (nem vou comentar), a senhora não só me diz que vou ter de esperar dois meses pelo novo BI, como também que eram precisas três fotografias e não duas. Lá fui para o trabalho, bebi outro café pelo caminho para acalmar a frustração que me assola de cada vez que vou à embaixada e nunca trato de nada (sempre, o que vale é que não tenho de lá ir muitas vezes), ignorei duas chamadas da escola e à terceira gritei que já estava a caminho, aprumei-me e fui tirar fotografias. Havia de conseguir renovar o BI antes de caducar ou não me chamasse eu tal. Numa máquina automática da Karstadt, sem vidros riscados nem autocolantes pornográficos, daquelas que dá para tirar até três fotografias e escolher a melhor. Ou a pior. Porque, às tantas, e não esquecer que ainda eram 10 da manhã e os três cafés continuavam sem fazer efeito porque era segunda-feira, perdi a conta às fotos que tirei (e o que eu me estiquei naquele banco para pessoas grandes) e o raio da máquina imprimiu a última foto. Logo a última. Se calhar era suposto ser assim. Mas é que era a pior de todas e a pior da minha vida. Acho que nunca tinha olhado para mim e me assustado tanto como naquele dia (há domingos de manhã em que me olho ao espelho e também me assusto, mas ver o pior de nós sair de uma máquina e ainda termos de pagar por isso assusta mais). Além de ter as narinas incrivelmente abertas e escuras (ao menos não se viam os pêlos), parecia que tinha icterícia em estado avançado. Feia, feia, feia. E, como nos três dias seguintes não encontrei nenhum fotógrafo pelo caminho (onde estão os gajos quando mais precisamos deles?), já não valia a pena esforçar-me. Porque pior que deixar as coisas para a última hora, é perder as voltas ao ponteiro e a hora passar de vez.

E tudo por culpa minha mãe. Porque se nunca lhe tivesse dado a terceira (jeitosa) fotografia que tirei para o passaporte (também ele caducadíssimo) à porta da Loja do Cidadão numa máquina do metro com o vidro riscado e cheia de autocolantes pornográficos, isto nunca teria acontecido.

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Quinta-feira, Novembro 09, 2006

17 anos, 9. November

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Terça-feira, Novembro 07, 2006

Perto do fim

Kona, konan, konur, é como se declina uma mulher em islandês.
Perguntei-lhe se não podia usar outro substantivo para chamar nomes feios a outras coisas. "É que este já o sei de cor".
Pudera.


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E é assim que este blogue começa a ter os dias contados.

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Domingo, Novembro 05, 2006

Como poupar na Islândia? (dia segundo)

Podia dar-vos dicas sobre onde comprar os postais mais baratos (na Skólavördustígur, antes do Tourism Center) ou onde comer à conta (um cachorro quente e uma coca-cola por 350 coroas no snack-bar da senhora asiática ao lado do Hresso), mas seria simplesmente ridículo. Porque os preços na Islândia são excessivamente nórdicos e qualquer tentativa de não gastar muito dinheiro é o equivalente a comprar os postais mais feios, a comer cachorros de manhã à noite e a ficar a olhar para metade da população bêbada enquanto nós nos aguentamos com a garrafinha de água que enchemos na pousada.
Poupar, realmente poupar, só no abençoado duty free ou se acontecer um azar qualquer. Como esperar meia-hora pela carrinha da Reykjavík Excursions que não aparece. Como ter posto o biquini na mala (ironicamente ao lado da roupa de Inverno da qual se teve de procurar em sítios onde não se guarda roupa de Inverno) para ir à Lagoa Azul besuntar-me de creme exfoliante e nadar numa piscina natural de água a ferver que, no entanto, não queima, devido à baixíssima temperatura exterior, e depois os gajos não aparecerem. Ora, eu sou torta, já o disse aqui, e quando acho que tenho razão, pior ainda. Então telefonei para a central e chateei-os tanto que acabaram por me dar 50% de desconto para a excursão das 18 horas.
Isso e o facto de ter lá chegado já de noite (menos gente, o céu estrelado por cima do vapor da água, o cabelo crespo tipo rasta mesmo depois de litros de amaciador, mas a pele macia e uma sensação de leveza tão grande que quando, no caminho de volta, vi as luzes do Norte, pensei inexplicavelmente em deus) são aquilo a que chamo de males que vêm por bem. E era o dinheiro de que eu precisava para comprar aquela t-shirt que tinha visto e que tinha achado foleira, mas há alturas em que todas as extravagâncias típicas dentro de uma loja de souvenirs são desculpáveis. Agora, quando uso a t-shirt toda a gente me pergunta se já estive na Islândia. E, pronto, convenhamos, era mesmo isso o que se pretendia.

Foto tirada de um postal, devido à impossibilidade física de tirar fotografias dentro da piscina.

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Sábado, Novembro 04, 2006

Mulher de negócios

Bilhetes esgotados, as ofertas a subir, gente desesperada, cifrões a passar à minha frente. Há que ser esperto, mas não ganancioso, ou acabaria por perder tudo como diz o ditado. Assim, vendi o bilhete mais cedo do que pensava e pelo dobro do preço. Podia ter vendido pelo triplo. Mas a espera estava a agoniar-me. E quando me tocaram à campainha, recebi a candonga de braços abertos.

Note to self: estar atenta quando o Robbie Williams vier a Berlim outra vez...

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Sexta-feira, Novembro 03, 2006

Espelho meu, espelho meu

Haverá alguém mais distraído do que eu?

Tens a certeza de que podes no dia 4? Tenho, no dia 5 vou a um concerto, mas no dia 4 estou livre, é claro que te vou ajudar a organizar a festa, podes contar comigo.

Durante semanas estive plenamente convencida de que ia ver The Killers a um domingo. E só quando hoje de manhã me lembrei de "ah, deixa cá ver a hora a que isto começa" é que reparei que numa mesma noite teria de me dividir em 3: uma para ajudar a F. na festa (e participar na mesma), outra para ir a uma festa de Halloween (a que não ia de qualquer maneira) e a outra para ir a um concerto para o qual comprei o bilhete já depois de esgotar (e eu chamei a isto de sorte??).

Eu até trocava a F. por Arcade Fire, Nick Cave, Björk, PJ Harvey, mas por The Killers não. Sim, a amizade para mim é uma beca importante. E como o dinheiro agora me fazia mais falta do que um concerto de rock que vai ser igual a todos os outros, achei por bem vender o bilhete pela Ebay. Ora, aqui é que eu devia ter estado quietinha. Como não tenho estrelinhas suficientes para determinar o fim da oferta, só posso vender o bilhete daqui a 3 dias. O que não dá muito jeito, visto que o concerto é amanhã. Lá telefonei para os gajos, a 40 e tal cêntimos por minuto, e falei com um rapaz muito simpático a quem ainda tentei impingir o bilhete e quem, por sua vez, me tentou convidar para tomar café (mas, olha lá, eles não gravam as chamadas?) e me disse que, es tut mir wirklich leid, não havia nada a fazer. Podia cancelar a oferta amanhã antes do concerto, mas teria de pagar as taxas, quer vendesse o bilhete, quer não. Ou seja, ninguém vai ver a minha oferta porque só aparece no fim da lista, vou ter de ir ao concerto e pagar as taxas da Ebay, vou deixar a F. apeada e nem sequer posso comer o maravilhoso tamboril que vou ajudar a preparar.

O pior de tudo, é que eu não sei porque é que estou a stressar com isto.

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Quinta-feira, Novembro 02, 2006

Pergunto-me...

...qual é o gosto mórbido que todos os velhos do mundo parecem ter em ver um prédio ser lentamente comido por um dinossauro mecânico?

...a neve esquizofrénica de ontem à noite não terá vindo cedo demais?

...porque é que os travestis são todos umas ordinaronas?



...ali em cima não devia ter escrito dinossáurio?

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Terça-feira, Outubro 31, 2006

Podia ser domingo

Amanhã não há santos em Berlim. Ou até há. Porque enquanto em alguns países se descansa pela alminha dos outros, aqui trabalha-se como bom protestante. Ou não, que eu cá não pago o imposto da igreja. Pago sim, o imposto do clube de vídeo todos os dias em que me apetece estupidificar enrolada nos meus lençóis vermelhos e desligar o som dos telefones. Se me ligarem, eu não oiço, é a melhor maneira de limpar a consciência, ah, ligaste?, pois devia estar a lavar o cabelo ou assim.

Como amanhã trabalho e esta foi uma noite normal de exercício de pré-conformismo à lua das 4 da tarde, vi quatro episódios do Lost - os primeiros, já que toda a gente falava nisso, deixa cá ver se isto presta mesmo.
Pois, gostei. Não se compara ao fascinante inverno-Six-Feet-Under do ano passado, mas é muito melhor que a desilusão dos primeiros episódios LWorld (não sei o que esperava, mas irritou-me um bocado ver como elas se amassavam nos dabliú cês públicos de uma maneira que me irritaria se algum homem me amassasse) e é a série ideal para domingos invernais de abstinência do mundo real. O facto de o meu clube de vídeo (ainda) só ter uma season da Lost à disposição (quantas há?), não me preocupa. Terei os domingos preenchidos até Dezembro e, com sorte, apetecer-me-á estar com gente nos domingos seguintes. Mas isto é porque continuo com azia.

Amanhã irei a um Quiz moderado por um dos travestis mais conhecidos de Berlim. Eu não sei quem ele é e acho um quizshow uma ideia um bocado foleira, mas os travestis costumam ser pessoas divertidas e bom, na verdade, três dias mal-disposta já me estão a fazer mal ao estômago, por isso, olhem, what the hell, tenham um bom feriado que eu vou ver por que ruas amarguradas anda a minha cultura alemã.

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Segunda-feira, Outubro 30, 2006

humpf

Eu até tenho um ar pacífico, cara de santinha e metro e meio (bom, um pouco mais) que não metem respeito a ninguém. Mas sou torta. E, já diz o ditado, quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita. Nos dias maus não suporto perguntas estúpidas nem gente ignorante. Ainda há aqueles dias em que o sol brilha e os passarinhos cantam e uma pessoa até nem está para se chatear muito, passa para o lado em que dorme melhor e nunca mais pensa nisso. Mas se me apanham num dia mau, especialmente numa sexta-feira em que pensava que ia sair a uma hora e acabei por sair duas horas e meia depois e o amigo que não via há três anos só me põe a vista em cima durante meia hora, porque o resto foi para o raio da chefe que personifica na perfeição o mal das pessoas que não mudam nunca (lá dizes tu, e com razão, as pessoas não mudam e ponto final) e me fazem uma pergunta estúpida, daquelas mais estúpidas do que a porra da porta que range, eu aí viro-me e digo, com o ar mais sereno que se pode ter quando a vontade é imitar a Juliette Lewis nos Assassinos Natos, pegar na pistola e lá vai ela de matar toda a gente, e digo uma coisa qualquer, daquelas coisas quaisquer que não causam danos morais a quem o diz, mas que deixam o ouvinte completamente lixado da vida, especialmente se da parte do último não brotar grande capacidade de entender as entrelinhas.

Ainda me lembro da estagiária que se armou em espertinha e acabou por ser corrida com grande estilo três meses antes de acabar o contrato com um relatório que ainda lhe deve estar atravessado na garganta e a promessa subentendida de que não iríamos ter saudades dela. Também me lembro da professora de alemão que se recusou a ir dar uma aula com uma desculpa ainda mais esfarrapada do que os trapos que trazia vestidos e eu não estive lá com bons modos e despedi-a no segundo imediatamente a seguir. O facto de não ser uma boa professora e de nós só estarmos à espera de mais um deslize e de eu ter tido um dia daqueles piores do que o de sexta-feira, deu-me especial prazer arrumar as coisas dela na prateleira dos professores que já eram.

A verdade é que eu até não sou uma cabra à imagem e semelhança de quem a gente sabe. Eu até tento ajudar os outros e fazer todos os favores que me pedem, limpar-lhes o cuzinho com água de rosas e tentar que o ambiente no trabalho seja o mais agradável possível (já que ganhamos todos uma miséria, ao menos que sejamos pobres mas felizes). O problema das pessoas é que abusam. Apanham uma gaja queridinha e simpática, e tau, lá me pedem as coisas mais escabrosas. Aí queixam-se que eu, depois de tanta vez me levantar e lhes ir buscar seja o que for enquanto eles limpam o sebo das unhas e depois ainda fazem um ar impaciente quando eu até estou ao telefone com um cliente - e não é daqueles telefones sem fios que dão para levar lá para fora para fumar um cigarro nos dias em que a chefe está num congresso - queixam-se que eu às tantas me passe e lhes diga, com o mesmo ar sereno da Juliette Lewis, qualquer coisa que os deixa com vontade que me saia, literalmente, o tiro pela culatra. Depois emproam-se, bufam muito alto e dizem qualquer coisa que eu não estou para entender e não me falam durante dois dias. Até que ao terceiro dia precisam de mais um favorzinho (um livrinho a pedir na editora, um certificadozinho por debaixo da mesa para um aluno que não tem dinheiro para pagar pelo carimbo, um avançozinho no ordenado, para lhes tirar as dores ao fim-de-semana - e depois vem a chefe e pergunta onde é que estão aqueles cem euros e eu invento uma coisa qualquer e ela fica desconfiada mas eu nunca conto nada) e lá vêm em bicos de pés e eu faço-os beijar o chão que eu piso e repetir muitas vezes a resposta a “E quem é a melhor sub-chefe do mundo?” e esquecemos as diferenças de opinião e vamos todos felizes para casa.

É claro que também há os outros que me adoram todos os dias (já construíram um altar com florzinhas e incenso em minha homenagem e tudo), quase me pedem desculpa por me fazerem uma pergunta, se vão despedir de mim quando encontram um trabalho mais bem pago e são tão atenciosos que até fazem impressão. A esses até lhes ia levar o café à sala de aula, se máquina houvesse. Mas não há máquina de café e uma pessoa tem de ser modesta com as demonstrações de carinho, porque abusadores todos são, só estão à espera que eu esteja distraída.

Por isso é que não entendo que a professora que eu tenho mais em conta naquela escola nunca mais se tenha sentado a conversar comigo desde quarta-feira. Passa por mim, baixa os olhos e quando tem de me perguntar alguma coisa precisa de o arrancar das entranhas, tal é a vontade que demonstra em me dirigir a palavra. Não entendo. Sinceramente que não entendo. E não me recordo de lhe ter dito nada à Juliette Lewis nem criatura parecida. Geralmente até a aviso quando não tenho tempo/paciência para o paleio e ela compreende quando é altura de bater a retirada. Mas agora não fala comigo. E eu, como acho que não fiz nada de mal e não suporto pessoas que esperam que lhes leiam os pensamentos, tenho agido como se também tivesse caído o Carmo e a Trindade para os meus lados. Depois ela fecha-se na sala de aula e eu pego no chicote e, zás, toca de me auto-flagelar com remorsos. Mas eu sou torta. E hei-de entortar tanto até não conseguir mais e ter de fazer o pino.

Não, isto não é bonito, nem tentem fazer o mesmo em casa. É apenas uma ode aos desencontros dos dias maus – dos meus com os dos outros – que se alternam entre segunda e sexta das tantas às tantas horas, e ao direito que cada um de nós tem de reagir como calha ao mau-humor dos outros.

Sim, estou mal-disposta. E depois, há problema?

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