Eu até tenho um ar pacífico, cara de santinha e metro e meio (bom, um pouco mais) que não metem respeito a ninguém. Mas sou torta. E, já diz o ditado, quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita. Nos dias maus não suporto perguntas estúpidas nem gente ignorante. Ainda há aqueles dias em que o sol brilha e os passarinhos cantam e uma pessoa até nem está para se chatear muito, passa para o lado em que dorme melhor e nunca mais pensa nisso. Mas se me apanham num dia mau, especialmente numa sexta-feira em que pensava que ia sair a uma hora e acabei por sair duas horas e meia depois e o amigo que não via há três anos só me põe a vista em cima durante meia hora, porque o resto foi para o raio da chefe que personifica na perfeição o mal das pessoas que não mudam nunca (lá dizes tu, e com razão, as pessoas não mudam e ponto final) e me fazem uma pergunta estúpida, daquelas mais estúpidas do que a porra da porta que range, eu aí viro-me e digo, com o ar mais sereno que se pode ter quando a vontade é imitar a Juliette Lewis nos Assassinos Natos, pegar na pistola e lá vai ela de matar toda a gente, e digo uma coisa qualquer, daquelas coisas quaisquer que não causam danos morais a quem o diz, mas que deixam o ouvinte completamente lixado da vida, especialmente se da parte do último não brotar grande capacidade de entender as entrelinhas.
Ainda me lembro da estagiária que se armou em espertinha e acabou por ser corrida com grande estilo três meses antes de acabar o contrato com um relatório que ainda lhe deve estar atravessado na garganta e a promessa subentendida de que não iríamos ter saudades dela. Também me lembro da professora de alemão que se recusou a ir dar uma aula com uma desculpa ainda mais esfarrapada do que os trapos que trazia vestidos e eu não estive lá com bons modos e despedi-a no segundo imediatamente a seguir. O facto de não ser uma boa professora e de nós só estarmos à espera de mais um deslize e de eu ter tido um dia daqueles piores do que o de sexta-feira, deu-me especial prazer arrumar as coisas dela na prateleira dos professores que já eram.
A verdade é que eu até não sou uma cabra à imagem e semelhança de quem a gente sabe. Eu até tento ajudar os outros e fazer todos os favores que me pedem, limpar-lhes o cuzinho com água de rosas e tentar que o ambiente no trabalho seja o mais agradável possível (já que ganhamos todos uma miséria, ao menos que sejamos pobres mas felizes). O problema das pessoas é que abusam. Apanham uma gaja queridinha e simpática, e tau, lá me pedem as coisas mais escabrosas. Aí queixam-se que eu, depois de tanta vez me levantar e lhes ir buscar seja o que for enquanto eles limpam o sebo das unhas e depois ainda fazem um ar impaciente quando eu até estou ao telefone com um cliente - e não é daqueles telefones sem fios que dão para levar lá para fora para fumar um cigarro nos dias em que a chefe está num congresso - queixam-se que eu às tantas me passe e lhes diga, com o mesmo ar sereno da Juliette Lewis, qualquer coisa que os deixa com vontade que me saia, literalmente, o tiro pela culatra. Depois emproam-se, bufam muito alto e dizem qualquer coisa que eu não estou para entender e não me falam durante dois dias. Até que ao terceiro dia precisam de mais um favorzinho (um livrinho a pedir na editora, um certificadozinho por debaixo da mesa para um aluno que não tem dinheiro para pagar pelo carimbo, um avançozinho no ordenado, para lhes tirar as dores ao fim-de-semana - e depois vem a chefe e pergunta onde é que estão aqueles cem euros e eu invento uma coisa qualquer e ela fica desconfiada mas eu nunca conto nada) e lá vêm em bicos de pés e eu faço-os beijar o chão que eu piso e repetir muitas vezes a resposta a “E quem é a melhor sub-chefe do mundo?” e esquecemos as diferenças de opinião e vamos todos felizes para casa.
É claro que também há os outros que me adoram todos os dias (já construíram um altar com florzinhas e incenso em minha homenagem e tudo), quase me pedem desculpa por me fazerem uma pergunta, se vão despedir de mim quando encontram um trabalho mais bem pago e são tão atenciosos que até fazem impressão. A esses até lhes ia levar o café à sala de aula, se máquina houvesse. Mas não há máquina de café e uma pessoa tem de ser modesta com as demonstrações de carinho, porque abusadores todos são, só estão à espera que eu esteja distraída.
Por isso é que não entendo que a professora que eu tenho mais em conta naquela escola nunca mais se tenha sentado a conversar comigo desde quarta-feira. Passa por mim, baixa os olhos e quando tem de me perguntar alguma coisa precisa de o arrancar das entranhas, tal é a vontade que demonstra em me dirigir a palavra. Não entendo. Sinceramente que não entendo. E não me recordo de lhe ter dito nada à Juliette Lewis nem criatura parecida. Geralmente até a aviso quando não tenho tempo/paciência para o paleio e ela compreende quando é altura de bater a retirada. Mas agora não fala comigo. E eu, como acho que não fiz nada de mal e não suporto pessoas que esperam que lhes leiam os pensamentos, tenho agido como se também tivesse caído o Carmo e a Trindade para os meus lados. Depois ela fecha-se na sala de aula e eu pego no chicote e, zás, toca de me auto-flagelar com remorsos. Mas eu sou torta. E hei-de entortar tanto até não conseguir mais e ter de fazer o pino.
Não, isto não é bonito, nem tentem fazer o mesmo em casa. É apenas uma ode aos desencontros dos dias maus – dos meus com os dos outros – que se alternam entre segunda e sexta das tantas às tantas horas, e ao direito que cada um de nós tem de reagir como calha ao mau-humor dos outros.
Sim, estou mal-disposta. E depois, há problema?